Pra não dizer que não falei das flores

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Ontem parecia um dia normal, como qualquer outro. Lá fora fazia um tempo confortável, a vigilância cuidava do normal, os automóveis ouviam a notícia que os homens publicaram no jornal.

Dilma Roussef deixava de ser presidenta do Brasil e Temer assumia o cargo. Votação folgada pelos senadores. A razão: abertura de crédito suplementar sem aprovação do congresso. Fiquei imaginando como explicar para os meus futuros filhos e netos o que seria isso, afinal não se trata de assunto fácil. Imagino que para os que apoiaram todo o impeachment não vai ser fácil explicar também, pelo menos não sem utilizar argumentos que não estão no processo, tais como “Petrolão”, crise econômica, ameaça comunista, falta de carisma, “aquela vaca” e por aí vai. Claro a mídia facilita criando o termo “Pedalada”, mas quero ver explicar o porque quase todos os ex-presidentes e os governadores de 17 estados não vão ser derrubados pelo mesmo motivo.

De qualquer forma também me passou pela cabeça como explicariam o fato de um congresso mais sujo que pau de galinheiro, com Eduardo Cunha como um dos principais articuladores, ter conduzido o processo na maior normalidade. Será que vão lembrar daquela primeira votação na Câmara, onde ficou claro o baixo nível moral e intelectual daqueles que comandam o país?

Será que vão lembrar de como muita gente embarcou na cruzada da limpeza moral e ética do país através de uma operação jurídica e midiática? Lembrarão que estas pessoas SUMIRAM das ruas depois que o impeachment já estava dado como certo, mesmo depois de inúmeras denúncias de corrupção contra o núcleo do governo Temer?

Lembrarão que os cruzados da Lava a Jato não “conduziram coercitivamente” nenhum figurão do PMDB? Lembrarão que misteriosamente as operações desta “cruzada contra a corrupção” aconteceram sincronizadinhas com os momentos políticos ótimos para ferrar ainda mais com o governo derrubado?

Se recordarão que as manifestações de verde-amarelo foram acompanhadas ao vivo com cobertura nacional enquanto as manifestações “vermelhinhas” tiveram apenas pequenos flashes de exposição na mídia, muitas vezes com repressão policial?

Acho que não. Mas pouco me importa. Aprendi a duras penas a tomar posição na vida. E ontem vi nas ruas que muita gente pensa como eu e estão dispostas a ir até as últimas consequências para não deixar este governo ilegítimo e golpista ferrar com as suadas e tímidas conquistas que tivemos em nossa recente e precária democracia.

Este governo simboliza tudo que a de PIOR na politica do país. E sim, o PT governou ao longo de muitos anos ao lado dele. Mas não estou falando do PT. Prefiro não falar dos mortos, Mas quero sim falar das flores que começaram a brotar no meu quintal.

Na porta da minha casa uma orquídea começou a florescer. Sinal que a estação está mudando. Nas ruas vi uma juventude combativa que não tolera esse sistema politico e econômico que governa para 1% da população. Uma juventude avessa a hierarquias e a politica tradicional dita “democrática”. Que carrega no peito as sementes dos protestos de 2013.

Em um ano de tantas perdas é preciso ter esperança, e regar as flores dos mortos para que algo novo possa crescer!

E para isto não é hora de luto. É hora de luta!

“Carregamos um mundo novo em nossos corações, que cresce a cada instante. Neste exato instante ele está crescendo”
Buenaventura Durruti. Anarquista Espanhol.

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